25 de Abril: Locutora põe discos pedidos há 44 anos, sem limitações desde 74

“O ‘Resineiro engraçado’, cantado pela Tonicha, podíamos passar, mas se fosse pelo Zeca Afonso já não”, disse Maria Helena à agência Lusa, ao recordar como foram vividos os últimos anos do regime ditatorial na Emissora das Beiras, situada no Caramulo.

A voz de Adriano Correia de Oliveira, que tal como Zeca Afonso foi mentor da canção de intervenção em Portugal, também não podia passar na rádio mas, fora isso, Maria Helena nunca se sentiu muito reprimida, apesar da proximidade a Santa Comba Dão, de onde era natural António de Oliveira Salazar. “Tirando um disco ou outro que o patrão dizia para não passar, não houve grande diferença do que se fazia aqui antes e depois do 25 de Abril”, contou a locutora, que entrou para a rádio a 1 de abril de 1966, passando esta a ter quatro funcionários, além dos colaboradores.

Maria Helena tinha então 13 anos e começou por fazer trabalhos administrativos e arrumar os discos na discoteca até que, a 1 de janeiro de 1970, se estreou como locutora. Nas vésperas da revolução do 25 de Abril, trabalhava praticamente sozinha, tendo apenas a ajuda de um senhor, que era enfermeiro num dos cerca de 20 sanatórios que existiam no Caramulo e que “fazia umas horas” na rádio.

“Perto do 25 de Abril, quando vínhamos a entrar, ficámos surpreendidos porque houve pessoas do Vale de Besteiros que vieram cá acima porque soou lá por baixo que queriam tomar de assalto aqui a rádio”, recordou, acrescentando que os ouvintes, preocupados, quiseram proteger a rádio.

Mesmo o patrão estava alheio a esta situação, nunca tendo chegado a perceber de onde partiu o alerta. O 25 de Abril de 1974 acabou por ser um dia praticamente normal na Emissora das Beiras. “O patrão chegou aqui e disse: ‘Houve uma mudança na nação’. Mas não se abriu muito mais para nós. Continuámos a trabalhar normalmente, não houve grande informação”, recordou.

O patrão era Joaquim António Seabra, que deu início ao projeto radiofónico – na altura com o nome de Emissora das Beiras/Rádio Pólo Norte – em 1939, num quarto de um sanatório. “Quando foi apanhado por essa terrível doença que era a tuberculose, veio curar-se para a estância sanatorial do Caramulo. Aqui, encontrou outras gentes ligadas à radiodifusão e foi daí que surgiu o projeto, inicialmente para entreter os doentes”, recordou Lopes da Rosa, gerente e diretor de programas da rádio e também marido de Maria Helena.

Segundo Lopes da Rosa, durante estes 75 anos “houve altos e houve baixos” e mesmo uma altura em que a emissora foi silenciada por falta de pagamentos aos fornecedores e aos trabalhadores. Chamava-se então Rádio Clube do Centro – Emissora das Beiras e pertencia ao consórcio do jornal “O Primeiro de Janeiro”.

O projeto arrancou em Onda Média, numa altura em que não havia mais nenhuma rádio na região. Lopes da Rosa recorda-se de que no interior do país existia a Rádio Altitude, na Guarda, e que também estavam a funcionar a Rádio Ribatejo, algumas na cidade de Lisboa e as grandes rádios nacionais, nomeadamente a Emissora Nacional, a Rádio Renascença e o Rádio Clube Português.

Lopes da Rosa começou a dedicar-se à rádio em 1976, na altura ainda não como trabalhador, mas sim “como simpatizante”, por carolice. Hoje, a Emissora das Beiras transmite em 91.2 Frequência Modelada e está “muito mais profissionalizada”. Tem cinco trabalhadores efetivos, a maior parte polivalente: um diretor de programas, uma realizadora, um sonoplasta, uma jornalista e uma locutora e auxiliar de serviço.

Apesar das dificuldades em cumprir com todas as responsabilidades, como salários, Segurança Social e seguros, “as pessoas estão a ser devidamente remuneradas, não com vencimentos muito altos, mas com uma média um pouco acima do ordenado mínimo”, referiu. A rádio, que desde 1989 pertence à sociedade Ao Tom Dela Rádio Limitada – Emissora das Beiras, teve em 2013 um volume de negócios de 90 mil euros.

Maria Helena orgulha-se de dizer que a emissora tem “a maior audiência da zona das Beiras” e é ouvida “por esse mundo fora”, nos Estados Unidos da América, no Canadá, na Alemanha ou no Brasil…

Lusa